Sábado, 23 de junho de 2018.

Suplício antes do suicídio

A vida, em determinados momentos, é um verdadeiro espetáculo recheado de ironias e sarcasmos. Um bom exemplo disto é o tradicional jargão: vai cuidar da sua vida. Quem quer ter a sua vida cuidada? Mais do que isso, quem quer cuidar da vida dos outros? Esta frase, ingênua, esconde algo muito interessante: a liberdade. Quando eu cuido da minha vida e o outro cuida da dele, eis que cada um é livre dentro do seu próprio mundo. Posso resumir que “da pele para dentro, começa a minha exclusiva jurisdição. Eu elejo aquilo que pode ou não cruzar essa fronteira. Sou um Estado soberano, e os limites da minha pele resultam muito mais sagrados que os confins políticos de qualquer país”.

Entretanto, o que é vida? A vida é uma coisa que eu não consigo definir, por ter uma imensidão de possibilidades de significâncias praticamente infinitas. No entanto, duas certezas eu consigo dar: a primeira é de que cada um possui apenas uma e que ela se encerra com a morte.

Pois bem, deste jeito é evidente que ela é unitária e individual, eu decido como me dispor sobre ela. Quando encaixo-a em um lapso temporal, posso escolher se na minha vida eu estudo matemática ou medicina, se viro a esquerda ou a direita, se como brócolis ou amendoim, se isso ou aquilo.

Quando realizo escolhas acerca das opções que me são oferecidas, as consequências recaem sobre mim (e mesmo que ela se reflita em terceiros, isso é causa de agravamento nas minhas próprias consequências), logo, as consequências são fatores inscritos dentro do lapso temporal em que encaixamos a nossa vida. O suicídio é uma escolha feita pela pessoa para liquidar, extinguir, esvaziar e acabar com as dores físicas e/ou psíquicas que a acometem. Deixando claro que nem sempre as dores que as pessoas sentem são em decorrência de seus atos, elas podem ter origem em abusos, opressões, depressão, drogas, bullying, humilhações e afins, e que quem tira a própria não quer, necessariamente, morrer, mas sim dar fim ao sofrimento.

No Brasil, nós temos o direito a vida como direito fundamental positivado na Constituição Federal em seu artigo 5°. Isto que impede, por exemplo, a pena de morte em nosso Estado. Por este mesmo motivo é que se blinda a possibilidade de se aceitar o suicídio. Em outras palavras, você tem o direito de viver, porém, não de morrer. De dispor livremente sobre sua vida, mesmo que cantemos em coro “vai cuidar da sua vida”.

Precisamos enfrentar o tema do suicídio, ele é muito mais complexo do que vemos. Necessitamos transpor o mês de setembro, não é só neste mês que as pessoas tiram a própria vida. Acontece o ano todo. O assunto também vai além de uma série, o problema é real e pode acontecer no vizinho ao lado ou dentro da sua família (nem Deus há de deixar, mas vai que...).

O suicídio não é um ato finito e limitado ao momento da morte. Do mesmo jeito que a própria morte é um evento progressivo, o suicídio também o é, o que é chamado de pré-suicídio. Muitas pessoas têm ou terão pensamentos suicidas, entretanto, alguns tentam e menos ainda chegam as vidas de fato. Segundo o site Setembro Amarelo, são 32 mortes/dia ou 1,4 mortes/hora. E de acordo com a OMS, 9 de 10 suicídios poderiam ser evitados. E a imagem dele é um roteiro ou um relógio, cada parte leva a outra e assim por diante, até que se chega ao gran finale ou ao soar do tic-tac.

O assunto ainda é um grande tabu, na minha rasa opinião isso se deve ao fato da nossa sociedade ser ideologicamente cristã, fato que torna o suicídio algo demonizado. A fortificação do tabu inviabiliza que o assunto seja difundido e que chegue aos ouvidos de quem precisa, mais do que isso, mesmo que alguém busque ajuda, ser visto como alguém que “sucumbiu” ao pedido de ajuda estigmatiza e caracteriza a pessoa como “fraca”, e ninguém quer ser taxado de fraco. Ainda mais no seio de uma comunidade em que quem pede ajuda pode ouvir resposta do tipo: isso é moagem.

Entretanto, o suicídio que é tão apedrejado é o “violento”, aquele dos enforcamentos, dos saltos dos parapeitos dos prédios, da overdose por remédios, ingerir água sanitária, o tradicional corte de pulsos, entre outros. Mas há outros tantos suicídios acontecendo por ai bem debaixo de nossas narinas.

Muitas mães e pais que perdem filhos entram em um ciclo de suicídio, tanto emocional quanto físico, quando perdem seus filhos. Emagrecem, definham em suas relações sociais e pessoais, e isso perdura por anos. Na mesma linha dos pais que perdem os filhos, idosos que perdem seus cônjuges, companheiros de toda uma vida, podem sofrer da mesma maneira.

Em nosso país, há um crescimento linear de suicídios entre os jovens, sendo este a quarta maior causa de mortes entre pessoas de 15 e 29 anos. Praticamente um caso de saúde pública. A depressão, abusos das mais diversas formas, as drogas e bullying são os principais fatores dos casos. Todos estes fatores, convêm dizer, estão perpetrados na fase do pré-suicídio, por isso tantas mortes poderiam ser evitadas. O suicídio não é uma bala perdida para alguém ser pego de surpresa, é um recipiente que vai se enchendo e em determinado momento transborda.

Como eu já havia dito, a vida é algo particular, intrínseco àquela pessoa, que ninguém pode exercer - lá por terceiro. É um direito personalíssimo. Deste modo, os problemas que, quais sejam, também são intrínsecos a mesma pessoa. Logo, se a pessoa tem desejos de tirar a própria vida, deve afastar esta mesma possibilidade sendo que ninguém poderá fazê-lo por ela, implicando na conclusão de que só quem está sofrendo pode alcançar a própria solução/salvação.

Vejamos. Pela simples lógica, você não sente o mesmo que o outro. Por exemplo: se você se depara com alguém em profunda depressão ou tristeza, por mais que diga palavras bonitas e seguidas de boas intenções, é a pessoa que escolhe se acolhe ou não aquilo. Faz parte da cura querer ser curado, a contra-senso do que pensam as pessoas que mandar ir ao psicólogo, mandar ir ao médico ou mandar lavar as vasilhas é o melhor, a verdade é que a solução está em possibilitar que o outro possa sentir-se confortável para curar-se através da sua liberdade guiando-o, ou seja, não é força que salva e sim o carinho.

Entender que o suicídio não se limita ao simples ato de dar fim a própria vida, que vai muito além. Suicídio também é o abandonado da própria existência, abstenção do desejo de continuar. Continuar bitolados no evento final, a morte, torna-nos complacentes da mesma. Estou dizendo que devemos prestar atenção ao processo de mortificação e suas engrenagens.

E um dos pontos chaves aqui é entender que em vários casos o próprio suicídio é aceito. Note, quem nunca viu ou ouviu um caso em que a pessoa foi liberada para morrer em casa? A própria eutanásia e seus desdobramentos (ortotanasia e distanasia). A diferença entre lá e aqui é que a dor física é recepcionada como um atenuamente sobre a consciência do que estava acontecendo. E nos acomodamos com aquela velha frase “estava sofrendo e agora descansou”. Digo-lhe, sorte daqueles que apanharam e não tiveram que ouvir um sermão dos pais e, no final, você pensa: eu preferia apanhar. Simples exemplo, mas ignorado e repudiado, como se a dor psicológica fosse menor. Eu preferia ter apanhado. Preferia. Por isso se cortam os pulsos, por isso se mutilam, pois preferiam apanhar.

A resposta sempre esteve e sempre estará no carinho e nunca nas ordens. Não é no tabu que se abrem portas, não é se calando que se ouvem palavras de acolhimento, não é ignorando que passa.

Para concluir, dois casos para se refletir.

1.       A americana Betsy Davis preparou uma festa para se despedir dos amigos antes de morrer.  Possuindo ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), que é degenerativa e não tem cura conhecida, optou por ser uma das primeiras pessoas a se submeter ao suicídio assistido no estado da Califórnia;

2.       Uma jovem de 16 anos cometeu suicídio após um vídeo íntimo ser disseminado por um aplicativo de mensagens

3.       Garota propaganda de 14 anos tirou a própria vida após ser vítima de bullying, ser vítima de uma “piada”.

Neste viés, de mão dupla, o suicídio é a solução? Para os três casos? Ele é aceitável? Aceitar em um e não em outro é, mesmo que indiretamente, dizer que há dores e dores? E qual é a solução? Cuidado, não estou dizendo que a solução é a morte, mas sim que a solução é a própria busca desta. Reflitam sobre o exemplo 2 (todos são reais), o que faria no lugar dela? Ou da família dela? A dor é individual e/ou coletiva? Quem sofre mais?

Depois que se perde alguém, tudo se tornam sinais, absolutamente tudo. Entretanto, não espere acontecer para entendê-los. Cuide da sua vida e evite destruir a do outro, nunca sabemos se o mundo do outro é um caos ou apaziguado, porém, certo é que ninguém precisa ser abalado por você, mas sim acolhido e aceito.

 

Vale a pena lembrar:

Art. 122 – CP - Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça:

Pena - reclusão, de dois a seis anos, se o suicídio se consuma; ou reclusão, de um a três anos, se da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave.

Parágrafo único - A pena é duplicada:

Aumento de pena

I - se o crime é praticado por motivo egoístico;

II - se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência.

Infanticídio

 

* Fernando Alves é acadêmico de Direito, estagiário, além de escritor e poeta amador.

@nando_allvez

 

Categoria artigos, articulista

Fernando Alves

Acadêmico de Direito, estagiário, além de escritor e poeta amador.

@nando_allvez




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