Domingo, 17 de junho de 2018.

Somos bastante criativos

Li numa revista que, pelo mundo a fora, existe um site que ajuda os maridos a encontrar uma boa desculpa para ter uma vida dupla ou viver uma aventura extraconjugal. O site foi criado, especialmente, para vender aos clientes “provas” do seu bom comportamento. São álibis como: a conta de restaurante, uma passagem de uma viagem de avião (não realizada), um convite, um pequeno recorte de jornal e assim por adiante. Os idealizadores do site afirmam: “So mos bastante criativos, não há problema que não se possa resolver”. O site ainda oferece três opções de idiomas: inglês, francês e alemão, e a garantia de que as provas serão bem sólidas, sem deixar brechas para dúvidas. Na propaganda, não estava especificado o preço do serviço. Também não dizia se já atendem mulheres e, o mais importante, em português. Só vale lembrar que, às vezes, pensamos que uma mentira contada para encobrir outra, afinal, se torne, ou se pareça, com a verdade. Será mesmo? 

No domingo seguinte à Solenidade de Pentecostes, a liturgia sempre nos convida a refletir sobre aquele que nós, cristãos, chamamos de “mistério” da Santíssima Trindade: um único Deus, em três Pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Nós acreditamos que foi dessa maneira que, aos poucos, o nosso Deus se fez conhecer. Na Bíblia, já no Antigo Testamento, Deus foi apresentado, no seu jeito de agir e querer, c omo o Deus libertador, o Deus da Aliança com o povo eleito.  Raramente, o Todo Poderoso recebeu o título de “pai”. Foi o Filho, que assumiu a natureza humana em Jesus de Nazaré que nos falou de Deus Pai, um pai bondoso, providente e misericordioso. Pai de todos, ao ponto que podemos rezar chamando-o de “Pai nosso”.

O evangelista João elaborou uma trabalhada apresentação do relacionamento do Pai com o Filho. Jesus repetia que vinha do alto, que estava obedecendo ao Pai e dizendo aquilo que tinha ouvido dele. Deviam acreditar. Os judeus, porém, pediam, ao menos, duas “testemunhas” como em qualquer depoimento jurídico. Era o mínimo necessário para confirmar a verdade das afirmações. Jesus respondia que, além dos sinais que fazia, era o Pai a dar te stemunho dele. Em certas ocasiões, como no batismo no Rio Jordão e na Transfiguração, foi a voz do Pai que disse: “Este é o meu Filho amado”. Jesus também fala do Espírito Santo que virá, quando ele voltar para o Pai. O Espírito Santo, o Consolador e Defensor, lembrará as coisas que ele, Jesus, o Filho, ensinou e conduzirá os fiéis no conhecimento da verdade.

Podemos chegar à conclusão que entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo não têm segredos, tudo é em comum, também se cada um tem uma missão própria. A Igreja, comunidade dos cristãos, que anuncia a fé trinitária, deve mostrar algum traço visível do mistério trinitário. O faz quando vive e pratica a unidade e o relacionamento construtivo entre as pessoas. É fácil entender a necessidade da comun hão. Com certeza, divisões e disputas não ajudam a manifestar a beleza da nossa fé. A nossa união deve ser reflexo da Trindade, não o fruto de ideias, projetos ou seguimento cego de alguns líderes mais ou menos carismáticos. Mais difícil é a partilha da nossa experiência de fé, esperança e caridade. Fazemos muitas atividades e celebramos muitas missas, juntos, mas poucas vezes trocamos os nossos sentimentos e a nossa vivência espiritual. Ainda não aprendemos a fazer isso ou temos receio que os outros zombem da nossa contemplação, da alegria de servir, da paciência que temos sabendo que os tempos das pessoas e de Deus não são os nossos, apressados ou demorados que sejam. Além de brigar entre nós, de desistir após a primeira crítica, parecemos estranhos que, pelas circunstâncias acabaram fazendo parte do mesm o grupo que se encontra na tal igreja. Bem pouco, porém, temos em comum. Desse jeito é difícil convencer os que olham para nós, com curiosidade ou crítica, que acreditamos no mesmo Deus, Uno e Trino. Somos sempre muito criativos para desculpas e justificativas. Precisamos melhorar a nossa imaginação e a nossa prática para vivermos mesmo a fraternidade e a comunhão.

Categoria artigos, articulista

João Batista Herkenhoff

Professor da Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha (ES), palestrante Brasil afora e escritor. 
Autor do livro Mulheres no banco dos réus – o universo feminino sob o olhar de um juiz. (Editora Forense, Rio). 
E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br 
Homepage: www.jbherkenhoff.com.br




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