A JUSTIÇA
ENVOLVIDA POR UMA SUCURI
Apesar de jovem, sou do tempo em que
o juiz de Direito era reverenciado. Do tempo em que a Justiça
- aos olhos da sociedade - era infalível e incorruptível.
Um advogado era visto como o fiel da "balança da Justiça".
Mas os tempos passaram. E hoje eu vejo a Justiça como uma
deusa com pés de barro. Já não caminha como
antigamente. Tornou-se morosa. Destituída das suas virtudes
originais. Sim, ainda há juízes e advogados que se
mantêm fiéis aos princípios jurídicos.
Que a Justiça Divina os preserve. E que os proteja contra
a ação cancerígena da corrupção,
que deu origem a tal Operação Anaconda, que envolve
delegados, agentes da Polícia Federal, advogados e juízes
federais. Anaconda. O mesmo que sucuri. Uma cobra gigantesca. Será
que a "o crime organizado" no seio da Justiça poderá
ter as dimensões de uma anaconda? Fico imaginando a Justiça
envolvida por uma sucuri, clamando por socorro. Quem a salvará?
Os magistrados honestos? O presidente Lula? Leio e ouço falar
sobre reforma do Poder Judiciário. Palavras ao vento? Nobres
intenções? O que sei é que a Operação
Anaconda é uma ameaça séria. Não bastará
botar os corruptos na cadeia. Será preciso evitar o aparecimentos
de futuras "operações anacondas".
Abro aqui um parêntese para dar outro
enfoque à discussão. Se algum leitor está tendo
acesso a este meu texto, seja através dos meios convencionais
(jornais, revistas) ou virtuais (como a Internet), é porque
estamos sob a égide da democracia. Em outros tempos, eu seria
severamente perseguido por causa dele. E democracia é um
direito do Homem. Um direito fundamental para a vida em sociedade.
Todo cidadão que vive em um Estado democrático precisa
que suas instituições funcionem. Que a Polícia
lhe dê proteção, que o Legislativo crie leis
que garantam seus direitos, que a Imprensa seja livre, que a Justiça
seja rápida e isenta... Sem instituições fortes
e maduras, não há democracia saudável.
A revelação do envolvimento de
juízes federais com tráfico de influência, comércio
de sentenças e o crime é um duro golpe contra a credibilidade
da Justiça brasileira.
O conteúdo das gravações
feitas pela PF e reveladas em reportagens publicadas pela revista
Veja e pelo jornal Folha de S. Paulo é estarrecedor. Nas
fitas, juízes federais falam abertamente sobre todo tipo
de negociata. De lavagem de dinheiro a espionagem eleitoral.
A gravidade das denúncias é enorme.
Afinal, a Justiça é uma instituição
fundamental para a Democracia. Se a sociedade perde a crença
na sua Justiça - seja porque ela é demasiado lenta,
seja porque lhe nega o direito, alimentando a impunidade, ou porque
seus agentes se vêem envolvidos em tramas subterrâneas
- surgem as condições necessárias para o rompimento
do tecido social. Uma sociedade sem Justiça é uma
sociedade com medo. E uma sociedade com medo é capaz de qualquer
coisa. Menos viver em democracia.
Louve-se o fato de que esta investigação,
que resultou na prisão de nove pessoas, só foi possível
porque houve o rompimento do corporativismo. A própria Justiça
Federal autorizou a escuta telefônica dos suspeitos e a busca
de documentos na casa de um juiz. E a Polícia Federal realizou
uma rigorosa investigação, que durou 1 ano e meio,
resultando na prisão de um agente e dois delegados federais.
O corporativismo no Poder Judiciário é um cancro que
atrapalha o exercício daquilo que chamamos de verdadeira
justiça.
A sociedade brasileira precisa aproveitar este
momento para ir mais fundo em um resgate da credibilidade das suas
instituições. Com transparência e com os espíritos
desarmados, entidades civis como a Ordem dos Advogados, a Associação
Brasileira de Imprensa, além de organizações
não governamentais, devem dar a devida sustentação
aos ventos que sopram de dentro do próprio Poder Judiciário.
A tarefa é árdua e longa, mas precisa de um ponto
de partida. E bem que podia ser agora. Talvez se nacionalmente a
empreitada fosse bem sucedida, quem sabe os setores que em tese
representam a sociedade civil amapaense tivessem coragem de pedir
abertamente a apuração do caso de desvio de dinheiro
no Tribunal de Justiça do Amapá. A postura dos desembargadores
em evitar tocar no assunto como se falar nesse fosse pecado, só
aumenta as suspeitas de que não se quer apurar o caso. A
verdade é que o Poder Judiciário no Amapá ser
arvora como intocável e suas decisões como irrepreensíveis.
Imagine você que a presidência do TJAP chegou ao extremo
de determinar que um caixa eletrônico do Bradesco que deveria
ser usado por qualquer cliente do banco, só fosse utilizado
por funcionários do Tribunal.
Como você vê, leitor, estou me
metendo num assunto escabroso. Mas vou em frente e volto ao assunto
inicial: o que gerou a Operação Anaconda? Dinheiro?
Dólares? A ambição é inimiga da razão.
Honestidade. Hombridade. Dignidade. Honradez. Probidade. Que lindas
palavras. Deveriam ser elas o alimento da Justiça. Mas, infelizmente,
essas belas palavras perdem a força quando o dinheiro interfere.
Dinheiro. O dinheiro é um poder vivo, atuante. Seu poder
situa-se entre a virtude e o pecado. Entre o bem e o mal. Os juízes
que participaram da Operação Anaconda, traíram
a Justiça como Judas traiu Cristo. Só os fiéis
apóstolos da Justiça conseguem vencer o poder corruptor
do dinheiro. A Justiça é a deusa dos direitos humanos
e deveria ser venerada. Imunizada contra os ataques de futuras anacondas".
Eu utilizo palavras. Mas rezo pela salvação da Justiça. |