A
crônica repetida
Quando, por preguiça ou falta de assunto,
o cronista adia sua crônica até a última hora,
e as trinta linhas que o separam do estalo da primeira idéia
até o alívio do dever cumprido parecem saltar do papel,
longe do lento correr do lápis, e o editor do Diário
do Amapá, no imbróglio da espera, esgota sua cota
de paciência e decide fechar a edição mesmo
sem o texto da sua coluna, eis que só se resta lançar
mão de um recurso desesperado: a crônica repetida.
A crônica repetida vem neste momento
de angústia em que a gaveta do autor, este depositório
de idéias e parágrafos mal-acabados, se abre para
que ele procure, entre as contas atrasadas e o exemplar do novo
testamento, um fragmento original que nunca se acha, e que serviria
perfeitamente para o cumprimeto da sua obrigação semanal,
esta crônica em gestação que repete a da semana
passada, indignando leitores, tornando o jornal uma figura que já
foi colada no álbum, uma maçã que já
foi mordida, uma cama desfeita que não lhe convida a deitar-se
novamente nela.
Aqui neste espaço, como vocês
hão de confirmar, já se abusou da crônica repetida.
Hoje pe um desses dias. A qualquer um pode parecer absurdo que um
cronista, com a tarefa única de entregar um texto por dia
ao jornal, não cumpra o seu fado com afinco e deixe que algo
parecido ocorra, mas, creiam, não é. Pra início
de conversa, minha vida não se resume a esta crônica.
Sou diretor de jornalismo de uma emissora de TV, professor na área
de Deficiencia Mental e um compositor nas horas de reuniões
etílicas do Bar do Abreu. Pensando bem, não se trata
somente de uma questão de preguiça ou falta de assunto,
como apontei no começo... Coisas interessantes acontecem
diariamente, a todo momento, e vai da disposição do
cronista convertê-las em matéria para o seu trabalho.
Mas aí está a raiz do problema: a disposição
do cronista.
Como gênero híbrido, a crônica
reivindica do cronista o talento de um bom escritor e a disciplina
de um grande jornalista. Perigo é quando os cacoetes da dupla
profissão vêm a reboque e, além de se mostrar
um escritor indisciplinado, o cronista se mostra um jornalista sem
nenhum talento.
É aí que o texto, quando
não atrasa, revela-se incapaz de proporcionar ao leitor o
prazer que uma simples notícia jamais proporcionará.
É aí que, quando não escreve sobre a falta
do que escrever (todo cronista que se preze tem uma crônica
sobre o tema), o sujeito escreve sobre aquele recurso pouco inspirado
ao qual ele apela em momentos de covardia: o de repetir uma crônica
antiga e seguir entretendo os leitores, como se nada tivesse acontecido.
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