Jornal Evangélico
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Renivaldo Costa
Jornalista e Educador.

A crônica repetida

Quando, por preguiça ou falta de assunto, o cronista adia sua crônica até a última hora, e as trinta linhas que o separam do estalo da primeira idéia até o alívio do dever cumprido parecem saltar do papel, longe do lento correr do lápis, e o editor do Diário do Amapá, no imbróglio da espera, esgota sua cota de paciência e decide fechar a edição mesmo sem o texto da sua coluna, eis que só se resta lançar mão de um recurso desesperado: a crônica repetida.

A crônica repetida vem neste momento de angústia em que a gaveta do autor, este depositório de idéias e parágrafos mal-acabados, se abre para que ele procure, entre as contas atrasadas e o exemplar do novo testamento, um fragmento original que nunca se acha, e que serviria perfeitamente para o cumprimeto da sua obrigação semanal, esta crônica em gestação que repete a da semana passada, indignando leitores, tornando o jornal uma figura que já foi colada no álbum, uma maçã que já foi mordida, uma cama desfeita que não lhe convida a deitar-se novamente nela.

Aqui neste espaço, como vocês hão de confirmar, já se abusou da crônica repetida. Hoje pe um desses dias. A qualquer um pode parecer absurdo que um cronista, com a tarefa única de entregar um texto por dia ao jornal, não cumpra o seu fado com afinco e deixe que algo parecido ocorra, mas, creiam, não é. Pra início de conversa, minha vida não se resume a esta crônica. Sou diretor de jornalismo de uma emissora de TV, professor na área de Deficiencia Mental e um compositor nas horas de reuniões etílicas do Bar do Abreu. Pensando bem, não se trata somente de uma questão de preguiça ou falta de assunto, como apontei no começo... Coisas interessantes acontecem diariamente, a todo momento, e vai da disposição do cronista convertê-las em matéria para o seu trabalho. Mas aí está a raiz do problema: a disposição do cronista.

Como gênero híbrido, a crônica reivindica do cronista o talento de um bom escritor e a disciplina de um grande jornalista. Perigo é quando os cacoetes da dupla profissão vêm a reboque e, além de se mostrar um escritor indisciplinado, o cronista se mostra um jornalista sem nenhum talento.

É aí que o texto, quando não atrasa, revela-se incapaz de proporcionar ao leitor o prazer que uma simples notícia jamais proporcionará. É aí que, quando não escreve sobre a falta do que escrever (todo cronista que se preze tem uma crônica sobre o tema), o sujeito escreve sobre aquele recurso pouco inspirado ao qual ele apela em momentos de covardia: o de repetir uma crônica antiga e seguir entretendo os leitores, como se nada tivesse acontecido.



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