Jornal Evangélico
do Amapá

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Renivaldo Costa
Jornalista e Educador.

Quero de volta a vontade de escrever

Não por mim, mas por essa meia dúzia de abnegados que diariamente desviam a atenção dos aviões que caem na selva, dos políticos que caem nas pesquisas, para ler esta coluna no Diário do Amapá que, alguém me lembra, já teve até seus momentos de humor, peço, por favor, não por mim, mas por eles – eles que já estão aqui no pescoço de crônicas repetidas, contos interrompidos e relatos improvisados – que você me devolva aquilo que você me tomou naquela noite de agosto que acumula folhas brancas sobre a minha mesa e borrões sobre a minha vida.

Não acho pedir muito. Você ficou com um livro meu de que gosto muito, dedicado pelo autor. Não precisa me devolver, pois agora ele é seu. Você ficou com um dos meus melhores cds. Seu, também. Você ficou com aquele postal achado na rua, o poema do Fernando Canto escrito no verso. Este eu mesmo lhe dei, e se por alguma razão você o tirou da parede, jogou-lhe fora, guardou-lhe numa caixa bem no fundo do seu armário, não carece procurá-lo. É seu, também.

Até os versos do Neruda que escondi nos seus bolsos. Os que você não achou ainda inclusive. Até aqueles que eu mesmo lhe escrevi, e hoje tanto lhe incomodam e eu não entendo por quê. Lamento, sabe? Eram sinceros, de verdade, mas são seus, afinal, você tem todos os direitos sobre eles. Como também os sonhos todos que ficaram por aí. Eram bons, eu me lembro, pareciam seus também, não quis que pesassem ou soassem dolosos. Os segredos todos, as promessas todas, o buquê de flores embrulhado em folha de jornal. Os gestos copiados de livros que li e tudo mais que faz de mim esse cara que hoje você chama de imaturo e que talvez seja mesmo, é pena, perdoe por lhe amar assim desse jeito que é o único que eu sei e que, infelizmente, lhe causou tanto desencanto.

Minhas noites de insônia, em particular a do sábado passado. Minhas relações conturbadas, a conta do meu psicólogo. O bom funcionamento dos meus rins, do meu cérebro, minhas funções motoras em geral. O frio, a melancolia, o cansaço. O cenho marcado na testa, o cabelo cortado pela tesoura ilusória da mudança. A desordem do quarto (eu mal me acho nele nos últimos dias), os 600 km transpostos para fugir de uma realidade que você julga inventada.

Devolva-me, pois, se nada disso, nem a vontade de amar, poderá ser devolvida; devolva-me, repito, não por mim, mas por eles, a vontade de escrever.



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