Pedido aos meus leitores
Será que alguém poderia me fazer um favor: sentar na calçada e tocar uma música qualquer num antigo realejo, apagar todas as luzes da casa e acender um velho candeeiro recusando-se terminantemente a ser moderno, por esta noite?
Ah! Se fosse possível que lançasse aos céus uma pipa qualquer, colorida, que desenhasse uma casa de amarelinha no chão e me convidasse a imitar as crianças, ou cavasse uns buracos no asfalto impedindo o trânsito e me chamasse pra jogar gude.
Alguém poderia fazer o imenso favor de me escrever uma carta de amor, feita a mão e, se possível, derramando um pouco do perfume na última página, como as namoradas de antigamente e, como adolescente, com a boca marcada de batom, selar as páginas, mesmo que seja a mentira mais deslavada? Prometo que lerei com olhos verdadeiros.
Alguém disponível pra tirar uns dois dias do calendário, na parede, me dando uma folga, no perder diário? Deixe o endereço para que possa lhe enviar meus agradecimentos ao fim do período. Caso exista alguém totalmente desimpedido e sem ocupações que aceite pegar umas tintas e sair pintando o céu com umas cores totalmente novas, favor me procurar. É que só tenho meia hora pra mudar minha vida e o cenário tem tão pouco azul...
Amanhã eu sei, será um outro dia: casulos irão parir borboletas, novos corais nascerão no mar e velhas canções serão ouvidas em todos os lugares. Mas, hoje, sou apenas um homem com suas circunstâncias e seu tempo. Sou menos do que pareço. E, canibal, me devoro.
Já não sei o que dói mais na memória: as cenas de tua vida comum ou os amores que não são meus. Hoje, e talvez hoje, não seja exatamente hoje, por alguma razão, perdi. È muito grande a travessia para tão pequeno barco.
Mas, amanhã, será um outro dia. Você vai enfeitá-lo com alguma mínima promessa. E, refeito, eu me lançarei, com a esperança tola dos que amam, de volta ao vendaval. E continuarei lutando pois é do meu ofício. Mas, hoje...
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