Jornal Evangélico
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Renivaldo Costa
Jornalista e Educador.

 

Carta às jovens mulheres

Benditos os navegantes de antigamente que acreditavam que a terra acabava na linha do horizonte, de onde cairiam, mas que nunca deixaram de lançar seus frágeis barcos nesta direção, bendito os que pintaram segredos nas cavernas acreditando que um dia seriam lidos ainda que sequer soubessem se haveria amanhãs, benditos os catingueiros da aridez do sertão, tocados pelas sete adagas de anjo, que nunca se mudam de sua terra porque não hesitam, nunca duvidam que o tempo da chuva e dos ventos será alcançado.

Benditos os que não deixam de semear suas roças, ano após ano, sem praguejar contra os deuses ou a sorte, sem deixar de preparar suas forças para fazer novamente, com mais cuidado e mais esperanças, as leiras do inverno que ainda vem.

Bendito os que não tiram os céus dos olhos. Os que confiam. Os que acreditam na própria imensidão. Bendita as cartas de Maria do Alcoforado, bendito Shakespeare e seu soneto CXVI, Romeu e Julieta, Othelo e Desdemôna, bendito meu coração que envelheceu sem ceder ao inverno. Maldito Shakespeare, maldito meu coração, que envelheceu, com a cobiça do impossível.

Agora que são outros os anéis de Saturno, que a lua não tem segredos e dragões, que domaram o sal do mar e tudo é substituível, como amar uma mulher se ela não acredita em eternidades? Que na vastidão de seu peito, não guarde a intensidade dos que amam desesperadamente e para sempre, dos que se inscrevem feito escrito antigo na pedra da caverna para ser lido em outras vidas e outros reencontros? Ou que acredita que o amor pode ser uma viagem longa e encantadora, mas com cais de ancoragem e retorno? As que duvidam que o amor maior de todos, não tem margem de contornos, nem rotas alternativas, nem tábuas de salvação. Como amar quem não se reconhece nas próprias escolhas, sem os disfarces do corpo e da alma? Como amar, hoje, as mulheres que admitem os finais e se conformam com esta possibilidade?

Ah, maldito poeta que semeou ambições nas minhas vontades e este meu coração desmesurado que acredita na infinita permanência e sonha com a mulher de amor insensato...

 



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