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Renivaldo Costa
Jornalista e Educador.

Crônica para uma quarta-feira

Renivaldo Costa - jornalista

A ida sempre tem motivos para o seu começo. Mas, como é breve e não há provas de sua reedição, convém evitar desperdícios. O que seria fácil se soubéssemos exatamente onde fica o marco zero, não o do Equador. O cais do gênesis. Os ensaios de amor, a cantada original ou pelo menos a previsão de quando irá chover nas amendoeiras com a mulher certa.

Sim, com a mulher de sua vida. Deixemos de fingimentos, ou de nos orgulhamos de quantos brinquedos de adultos podemos comprar, pois nada disso nos fará invencível, capaz de matar dragões, dançar a valsa vienense, ouvir milhares de vezes a mesma canção no cd do carro, comer tomate com orégano na Cantina Italiana ou estourar a conta de telefone só para ouvir uma madrugada ela dizer que está pensando em você mais do que a lei e as normas de boa conduta recomendam.

Ela é o que interessa. O resto, seja versos no jornal, a privatização da CEA, ou o carro do século, são sós os disfarces, nossa dança de acasalamento, baile nupcial, nosso rugido mais alto para chamar sua atenção, visto que ficar nu além de ser atentado ao pudor, pode causar decepções abdominais no mercado especulativo e sarado das conquistas.

Assim como Júlio César, o romano, que foi, viu e venceu, aprendemos que, o vir, ver e vencer, é conquistar de forma irreversível e sem insurreição, o amor de uma mulher. É tornar-se a razão do seu choro quando viajar e de outro, ainda maior, ao retornar, são e salvo, de um dia na roça.

Ou ela ser tomada por uma semana de tristeza incurável só por imaginar que poderíamos morrer antes dela, com este jeito devoto que só as mulheres sabem ter e que funciona como nosso programa de milhagem existencial, uma apólice que nenhuma outra emoção pode cobrir. E quanto nos fragilizamos como meninos e nos fortalecemos feito heróis quando ela murmura que a deixamos louca e que somos sim, muito, muito bons, como se tivéssemos sido aceitos como Cavaleiros da Távola Redonda. Ah, nós homens, pobres homens.

Mas, para a plenitude, ela exige sabedoria e doação, por isso é necessário que não venha tão cedo que ainda não saibamos as renúncias da cumplicidade nem tão tarde que os desenganos já tenham deletado nossas utopias. Porque se a perdemos é como um gineceu cinzento que nunca se desfaz em primavera. Perdê-la é não poder imaginar o sol abrindo a janela e acordando nossos olhos em comuns, a pertencência, a casa com os quadros e fotos na parede e as histórias no tapete, a mesa do jantar como a velha fogueira aonde se reuniam os antepassados, o parto e os filhos alinhavando a memória e os objetivos comuns, os abraços como os anéis de Saturno, o amor com perdão, o riso como a senha para devorar a esfinge do cotidiano.

Porque há um alumbramento em toda terra, um desvio inexplicado de seu eixo, um destino que se remodela na oficina das divindades, ou diante dos peixes, o fio que as deusas que tecem a vida se retardam em cortar, um dialeto que se funda para o casal, uma aliança, um anel de esperanças e fogo, tatuando a posse. Porque há uma repentina onda de fertilidade e todos os úteros se tornam qualquer coisa de grávidos e meu tempo de esperar se faz tua colheita. Porque há algo que, de repente, me fecunda e cura meu país quando ela diz te amo. Só quando ela diz te amo.

 



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