Sobre entregadores de panfleto
Um entregador de panfletos você conhece de longe, e não é preciso ser um exímio observador para elaborar um verdadeiro compêndio sobre o perfil psicológico desses profissionais. Mesmo à paisana entregadores de panfleto têm um porte de franco atirador, de fuzileiro naval, conversam olhando para as mãos de seus interlocutores (quando estão programados para conversar) e nunca, em hipótese alguma, estão dispostos a aceitar suas recusas. Transitam pelo centro da cidade, rincão de todo bom entregador de panfleto, e curiosamente repugnam os companheiros de classe, agindo da maneira que agiríamos, ou seja, ignorando-os, quando não estão em atividade.
Pensava nisso quando cruzei com uma semana passada, na calçada da Praça das Bandeira, e me senti como um clichê de filme faroeste. Crispei os dedos, agarrei-me ao jornal como tábua de salvação, mas a garota foi mais rápida no gatilho e o panfleto veio cair bem no meio do jornal aberto com minha crônica do Diário do Amapá. Tive ímpetos de amassar o panfleto e jogá-lo ali, bem na frente dela (ironia: uma entregadora de panfletos perto de uma lixeira), mas olhei mais uma vez para aquela máquina de atirar papel para todos os lados e tive pena dela.
Li o panfleto com um esforço homérico para que ela percebesse, mas seus olhos estavam fitos nas mãos dos transeuntes e nada, nem uma catástrofe nuclear, a faria desviar dos dedos da multidão. Tratava-se de uma promoção de uma concessionária, a Betral (eu nunca compraria um carro lá).
Passei na farmácia ao lado Pastelaria do Goiano, comprei alguns chocolates e ainda pensei em escrever um poema, mas vi que não valia a pena. Acabei presenteando a entregadora de panfletos com os meus bombons, desejando-a boa sorte. Ela não entendeu. Mulheres quase sempre não entendem mesmo. Principalmente se são entregadoras de panfletos.
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