Jornal Evangélico
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Renivaldo Costa
Jornalista e Educador.

E a vida continua...

O almoço rápido, o futuro não espera por algumas centenas de calorias. Um olho no peixe, o outro no gato, no cachorro. O cachorro. A cozinha apertada. "Este lugar é pequeno demais pra nós dois". Os ponteiros do relógio que estão errados, já disse a ela que quando é uma hora e pouco o ponteiro deve estar no pouco que é uma hora e não na uma hora que é o pouco. A pia que se estreita, o copo que está longe.
 
O garfo escapa, o guardanapo cai, o Bira Burro cheira pensando que é comida (Bira Burro é o nome do meu cachorro, em homenagem a um amigo). Suco, tem suco, mas preciso cuidar menos da saúde, coca-cola é melhor. Limão, mas esse é o lugar do ovo. Ovo, ovo, ovo, só tem ovo e ovo é o que me falta à noite. Um limão, amarelo, quase podre, preto nas bordas, feirantes sujos. A faca do bife à milanesa é a faca do limão.
 
Antes o gelo, que o gelo sempre tem que vir antes. Aí enfim o limão. Um corte, outro corte, sempre dizem que eu vou cortando as poucos. Lembro dos queijos, nunca aprendi a cortar queijos, e justo o meu melhor amigo, o Fernando Canto, um exímio cortador de queijos, exímio conhecedor de vinhos (mais de cachaça, é bem verdade, mas quase um europeu, quase um conde de Petersburgo).
 
Outro corte, mais profundo, vai a casca, vai a poupa, vai o dedo junto, vai o sangue, vai o dedo à boca, vai a pressa junto, vai a comida de uma vez, vai a chave que sempre erro, o ferrolho, os pés no chão, o pensar que a rua nunca é a mesma, que eu nunca sou o mesmo, que a vida não, ela é sempre, sempre a mesma. Vai o ônibus, os passos, o passe, os passageiros. Vai os alunos patéticos, vai o carinha que tem os óculos de tartaruga e a camisa florida de estrangeiro. Esses guianenses!
 
Vai a pressa de novo, mas nas palavras dele, no tape, na cara dos outros, no rabiscar nas folhas, nas folhas, que saem e saem e saem e saio sem pensar em nada e leio sem pensar em muita coisa e tomo o café na esquina só pensando no quanto a atendente do café é amiga minha naquele momento. É triste, mas é verdade.

 



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