Jornal Evangélico
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Renivaldo Costa
Jornalista e Educador.

O futebol

Para quem jamais conceberá o mistério da maternidade, a visão de uma mulher em êxtase, sentindo no ventre os primeiros chutes do bebê, poderá até parecer banal ou despida de beleza. Assim também o parecerá, para quem jamais irá compreender o grande mistério do futebol, a visão de uma multidão ensandecida, rompendo os portões de um estádio para ver 11 cidadãos vestidos de criança, demonstrando para outros 11 igualmente vestidos, que com os pés se pode operar milagres.

Metade da comparação não é minha. Arranquei-a de uma crônica de 1950, escrita por um jovem jornalista que hoje conhecemos pelo nome de Gabriel García Márquez. Gabo, como era chamado pelos seus colegas, era um ignorante em matéria de futebol. Todos os domingos se via privado da companhia dos amigos, que religiosamente iam às arquibancadas do estádio Romelio Martínez, em Barranquilla, acompanhar os jogos do campeonato colombiano. Gabo mostrava-se perplexo ao vê-los vibrar pela bola "com tanta sinceridade como o fizeram diante de um poema de Rilke ou um romance de Faulkner". Perguntava-se como uma partida podia reunir tantos intelectuais quase como se Virginia Woolf, em pessoa, fosse atuar na ponta esquerda.


O futebol vai de encontro a qualquer atitude racional. Eu, por exemplo, já desisti de me perguntar por que paro o que quer que esteja fazendo (e isso às vezes envolve coisas interessantíssimas) para ver a transmissão de uma partida de futebol. Não importa que seja o amistoso do Amapá Clube com o time do Muaná. Que valha o título da segunda divisão da liga de solteiros e casados do bairro do Trem ou do sindicato dos garis. Torço como se meu próprio time estivesse em campo, e não me poupo de xingar a mãe do juiz e de gritar a partida como um técnico à beira do gramado, que nem sempre existe.

Há os que estranham este fanatismo. Mas o meu respeito por eles é tanto mais profundo quanto mais incapaz me sinto de alguma vez chegar a descobrir o misterioso entusiasmo da ginástica olímpica.

Acreditaria que os insípidos, que os loucos, são os fanáticos pela ginástica. Mas, depois do que disse, não me resta recurso mais sensato que o de reconhecer que louco sou eu, que me emociono diante de uma pirueta de Mané Garrincha tanto quanto frente uma equação de segundo grau.

 



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