"A carreira na polícia é uma missão", explica comandante do Bope em entrevista






O policial militar tem que gostar do que faz, como missão, independente da unidade que pertença. Aquele que está na PM apenas por causa de uma questão financeira, vai sair na primeira oportunidade de emprego em outro lugar, foi o que disse o comandante do Bope, tenente-coronel Paulo Matias durante entrevista ao programa Reação no Ar, na 101 FM. “O policial do Batalhão de Operações Especiais não quer sair, pois gosta do trabalho, mesmo ganhando menos (que outras profissões). Depois que faz um curso operacional, obtém um grande conhecimento”.

Seleção

Não basta apenas condicionamento físico para fazer parte do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar. É preciso também que o policial não esteja respondendo a inquérito que desabone a conduta. Os policiais candidatos precisam passar por um curso que pode durar até três meses.

Passando em todos os testes previstos no edital, o candidato é encaminhado ao curso para provar que tem condições para fazer parte dessa tropa. O curso na área de Operações Especiais exige muito do condicionamento físico e psicológico do policial militar, que também precisa de preparo técnico-profissional. É preciso passar por um curso de ações táticas, como forma de se adaptar à realidade. A exigência é muito grande porque o policial tem que sair com um padrão de no mínimo 80% de acerto em todas as instruções. Às vezes o policial se forma, mas quando não rende o esperado nas atividades propriamente ditas, é transferido para outra unidade.

Mortes em ação

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, relativo aos anos de 2015 a 2016, divulgou a taxa de morte por policiais no Amapá. Para cada 100 mil habitantes, 7,5 morreram em decorrência da ação policial. “Para nós não é motivo de orgulho dizer que no Amapá houve muitas baixas em relação à nossa ação policial, seja do Bope, da Força Tática ou de qualquer outro batalhão de área, até porque todos os batalhões têm se envolvido em ocorrências que os bandidos vêm a óbito. Não é motivo de orgulho porque a cada ocorrência dessa natureza, a gente perde um policial por 15 dias ou mais, em decorrência aos traumas. E nós somos a favor da vida, em qualquer circunstância”, explicou Paulo Matias.

No Bope, a equipe envolvida em uma ocorrência que resultou em morte é desligada da escala operacional e encaminhada para uma avaliação psicossocial. De acordo com o resultado, os policiais podem retornar à escala normal em até quatro dias, mas se for detectado algum trauma em decorrência da ação, o comando do Bope deve deixá-los fora da escala por pelo menos 15 dias. Isso é uma perda de policiais na escala. Muitas vezes esse tipo de ocorrência não causa nenhum trauma de imediato, mas ao longo do tempo ou mesmo após ir para a reserva, aflora as consequências do trabalho exercido no passado.

O coronel Matias reconhece não se tratar de algo simples disparar uma arma. “Muitas vezes essas ocorrências são criticadas exaustivamente por pessoas que não têm conhecimento do nosso trabalho, que fazem críticas negativas que não contribuem com a melhoria da segurança pública. Isso tudo acarreta num peso de responsabilidade muito grande para a equipe envolvida na ocorrência”, ressaltou.

 “Gostaríamos que fosse diferente, que pudéssemos chegar e prender os bandidos e deixar a questão pra Justiça”, disse Matias.

“Não vamos perder a guerra para os bandidos”

 Assim motiva o comandante a sua tropa, e o faz seguindo o rito de que o comandante de unidade, de companhia ou somente da tarefa daquele dia, é orientado a dar todas as informações necessárias para o bom andamento do serviço, bem como sempre dar uma palavra de ordem, de motivação. “Como comandante de unidade, também estou inserido na responsabilidade de motivar a tropa”, contou.

Ocorrências

O comandante explica que algumas ocorrências são de maior complexidade. No mês passado, um assaltante acuado pela polícia entrou na própria residência e ameaçou se matar ou a qualquer policial que tentasse entrar na casa. “A gente poderia até deixar ele se matar, até porque seria um bandido a menos. Mas trabalhamos na técnica que tem como primordial a preservação da vida, independente de ser um policial, um refém ou mesmo um bandido. É lógico que se for necessário neutralizaremos o bandido, pois sabemos que estamos perdendo uma vida ali, mas estamos salvando várias outras implicadas na ocorrência”, explicou coronel Matias.

Nas ocorrências de grande complexidade é feito um estudo para saber os pontos positivos e negativos do caso. A intenção é melhorar ainda mais as ações. O comandante do Bope disse que desde que iniciou o gerenciamento de crise no Amapá, foi registrado 100% de acerto. “Não tivemos baixa de policiais ou de bandidos e nem tampouco de cidadãos feridos em consequência de uma ação desastrosa por mau gerenciamento da polícia. Isso é motivo de orgulho”.

Organização

O Bope foi criado em 2002, tendo participação do coronel Matias. O sucesso da PM, em especial do Bope, deve-se a existência de inúmeros policiais formados em várias polícias centenárias, como é o caso de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Minas Gerais. Outras são mais jovens, mas com uma grande gama de experiência. Tudo o que é bom nessas polícias é trazido para a realidade do Amapá. Com isso, a polícia, apesar de ser nova (40 anos), vem crescendo ao longo dos anos em conhecimento técnico e profissional. Motivo pelo qual foi elogiada em nível nacional pelo bom resultado nas ocorrências, o que não tem sido obtido em outros estados, como é o caso do Pará, onde ocorreu até a morte de um negociador durante uma ação.

Qualquer batalhão é composto por companhias. O Bope é formado por quatro. A primeira é a Rondas Ostensivas Motorizadas (Rotam), composta por policiais em viaturas realizando todos os dias o policiamento ostensivo e preventivo. A segunda é a Companhia de Distúrbios Civis (Choque), empregada em policiamento de estádios, grandes eventos, revistas em estabelecimentos prisionais (Cesein e Iapen), reintegração de posse e outras missões determinadas pelo comando do batalhão, o comando-geral ou pelo governador. Na Companhia de Choque há o pelotão do canil, que está previsto ser transformado nos próximos anos na 5ª Companhia do Bope, que vai trabalhar no policiamento com a utilização de cães. É um pelotão que tem dado resultado com acionamento diário. A terceira é a Companhia de Operações Especiais (COE), tida como “berço dos caveiras”, composta por homens formados em ações táticas e que geralmente estão vestidos de preto e se deslocam em um furgão preto escrito “Gerenciamento de Crise”.

Ações atuais

Os policias do COE podem agir caso algo saia do controle. O coronel Matias repassa as informações sobre que tipo de ação deve ser executada: a tácita ou a de invadir o ambiente. A Companhia de Giro, que se refere ao policiamento com utilização de motocicletas, é muito ágil porque as motos são de 660 cilindradas, enquanto que as motos do Amapá são de 125 a 300 cilindradas. Os policiais da Companhia de Operações Especiais estão atuando em Laranjal do Jari, cuja missão acontece nas áreas alagadas e em áreas de ponte. O objetivo é repreender casos de furto e roubo. Outra missão que está sendo executada é o combate aos assaltantes de embarcações, conhecidos como “ratos d’água”, nas ilhas do Pará.

Por Jorge Cesar/aGazeta

 



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