QUESTÕES CONCEITUAIS


É um desafio muito grande entender a ideia de conceito de produto. Esse desafio se torna maior quando é um cientista tradicional que pretende se envolver com a geração de tecnologia. Acostumados a verem as coisas sob o prima único e exclusivo da ciência, cuja preocupação é compreender e explicar os fatos e fenômenos do mundo, os cientistas tradicionais não conseguem entender o que os cientistas engenheiros querem dizer quando pronunciam o termo “conceito de produto” e “conceito do produto”. A razão disso é que a mente deles está aprisionada pelas grandes restrições que a ciência faz em relação a questões qualitativas, subjetivas, axiológicas. Mas essa dificuldade também permeia a mente de engenheiros com muita experiência porque realmente não é fácil definir o conceito do produto. Tanto é assim que a maioria dos produtos lançados nos ambientes de demanda fracassam. E não é por outra razão maior do que a inadequada definição dos seus conceitos. No método científico-tecnológico é preciso lidar com o desafio de definir conceitos teórica e operacionalmente. Mas o que isso vem a ser? Vejamos.

De uma forma geral, um conceito pode ser entendido como uma representação simbólica de uma determinada coisa. Traduzindo, significa que o conceito é uma descrição escrita ou falada sobre o que alguma coisa é. Não é o que essa coisa poderia ser. O conceito é sempre uma tentativa de falar de uma forma tal que qualquer pessoa consiga diferenciar a coisa que de que estamos falando de todas as outras coisas que existem. Quando digo que homem é o ser humano do sexo masculino estou querendo dizer que apenas o homem é capaz de se enquadrar nessa descrição. Por isso um conceito (no nosso exemplo, homem) é composto de um termo de equivalência (no nosso exemplo, ser humano) e pelo menos um atributo (no nosso exemplo, sexo masculino). O conceito mulher sofreria uma diferenciação apenas nos atributos, já que se se trata do mesmo tipo de ser (humano), mudando o atributo sexo de masculino para feminino.

A primeira observação a ser feita é que nem sempre os conceitos são tão geométricos, tão precisos quanto esses exemplos de homem ou mulher. Aliás, há toda uma briga entre os não cientistas em torno da questão do sexo, querendo a substituição por gênero. Isso aponta o desafio que é a delimitação conceitual das coisas. Muitos conceitos se enquadram em várias categorias, o que leva à exigência de mais de um termo de equivalência e, consequentemente, vários atributos. As questões conceituais, portanto, visam primeiro dar conta teoricamente da distinção do escopo explicativo dos fenômenos envolvidos na criação da tecnologia. Se ela estiver vinculada à satisfação ou motivação, é necessário definir conceitualmente cada um desses fenômenos, dizer principalmente onde termina a satisfação ou onde termina a motivação.

Mas é fundamental não se esquecer de que a geração de conhecimentos científicos é etapa anterior à materialização da tecnologia. Assim como há a exigência da definição do escopo conceitual, é necessária também a delimitação do escopo do produto, que é o que se chama na engenharia de conceito de produto. Como se sabe, um produto é todo protótipo que foi aprovado em todos os testes de conformidade a que ele foi submetido. Um protótipo é testado com base nos benefícios que ele vai entregar aos seus clientes ou público-alvo. Por essa razão, primeiro é necessário saber quais são os benefícios que se quer entregar e depois testar o protótipo para se ter a garantia de que aqueles benefícios estão presentes, se estão conforme os desejos e necessidades de quem vai utilizá-lo. Como consequência, o conceito do produto nada mais é do que esse conjunto de benefícios que vai ser entregue e, naturalmente, aferido por seus usuários. Aqui é tanto uma delimitação conceitual quanto operacional não mais dos fenômenos envolvidos na construção do objeto, mas da própria solução (tecnologia) que vai ser entregue.

Diversos fatores entram na composição do conceito do produto. Dentre eles podem ser apontados os de natureza intrínseca do produto (matérias-primas, embalagens, cor etc.), os valores agregados (durabilidade, segurança, garantia etc.), os valores percebidos (beleza, aparência, agradabilidade etc.). Como a lista é imensa, a forma mais adequada é levar em consideração as necessidades dos clientes e usuários. Mas todos eles são fundamentais para que se compreenda o que são chamadas questões conceituais.

As questões conceituais são aquelas cujo objetivo é delimitar conceitualmente os fenômenos envolvidos na geração da tecnologia (definições tipicamente conceituais) e também aquelas cujo desafio é apontar de forma sintética a solução que vai ser entregue aos clientes e público-alvo da tecnologia a ser gerada. Há, então, as questões conceituais sob a responsabilidade da ciência, para delimitar o estado-da-arte dos fenômenos em estudo, e as questões conceituais de produto, voltadas para delimitar o escopo das soluções que o produto vai apresentar (compostas de questões conceituais e operacionais). Ainda que abranjam duas dimensões do conhecimento humano (científica e tecnológica), como são esforços conceituais começam sempre com a frase “o que é/são”. “O que é motivação?” e “O que são fatores motivacionais?” são dois exemplos típicos de questões conceituais de ciência, enquanto “o que é uma cadeira voadora?” e “O que são atuadores?” são questões tecnológicas (mas também passíveis de abordagem científica).

As questões conceituais têm a função de orientar os pesquisadores sobre os limites de conhecimento sobre determinado fenômeno e também delimitar as operações dos inventores às operações que levam à garantia dos benefícios desejados pelos clientes/usuários da tecnologia que se pretende gerar. Há questões que delimitam conceitualmente as coisas do mundo, enquanto outras se preocupam com a delimitação operacional. Saber utilizá-las é outra exigência do método científico-tecnológico.


Dr. Daniel Nascimento e Silva

Dr. Daniel Nascimento e Silva

PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)


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