QUESTÕES PROCESSUAIS


A física quântica mostra que a dinâmica é a ordem do universo. As micropartículas que compõem os elementos subatômicos estão em constantes interações provocando e sendo provocadas, impactando e sendo impactadas. As questões estruturais têm o desafio de capturar uma fotografia dos fatos e fenômenos do mundo, naquilo que os cientistas chamam de perspectiva sincrônica ou transversal. Elas são fundamentais porque as coisas em movimento apresentam dificuldades extras para serem compreendidas. Mas é essencial também, muitas vezes, que a dinâmica seja a tônica. E o caráter mutante a que toda análise diacrônica ou longitudinal se coloca como desafio começa com a identificação das partes do transcurso da mudança. De forma mais precisa, mudanças são as coisas em processo, de maneira que é necessário que sejam elaboradas questões de pesquisas específicas para que cada etapa do processo seja compreendida.

Um processo é todo sequenciamento lógico, com início, meio e fim, voltado para a produção de determinado resultado. Quando se fala em sequenciamento lógico está-se referindo à possibilidade de decodificação sistemática do comportamento de fenômenos que permita a reprodução e previsão. Quando se estuda o comportamento dos fenômenos atmosféricos, por exemplo, o resultado é a codificação em equações matemáticas passíveis de programação computacional que, aliada à inteligência artificial, permite que se façam reproduções de acontecimentos e a antecipação de eventos com elevada probabilidade de sucesso.

O sucesso é decorrente exatamente da possibilidade de serem detectados eventos iniciais disparadores daquele sequenciamento lógico, seguidos de eventos intermediários que confirmam os anteriores e preparam a contextualização e possibilidades dos eventos finais. Cada sequenciamento lógico, contudo, tem sempre a possibilidade de desdobramentos menores ou subetapa. Quando isso acontece, esse subsequenciamento é o produtor do resultado que caracteriza sua macroetapa. Assim, os subsequenciamentos são as nominações das etapas, em que cada etapa gera um resultado como consequência das interconexões de suas subetapas. Uma etapa é caracterizada, portanto, pela produção de alguma coisa que vai ser utilizada na etapa seguinte. Há uma relação de cliente-fornecedor entre as etapas e entre as subetapas de cada subsequenciamento.

Os fatos e fenômenos do mundo processam suas mudanças, mudam seus comportamentos, porque estão em contínua produção de alguma coisa. Os processo, fenômenos através dos quais isso acontece, são sequenciamentos lógicos de microproduções, em microprocessamentos. Uma microprodução é aperfeiçoada logo a seguir, servindo de matéria-prima para a etapa seguinte, em uma repetição que culmina com a geração do produto ou resultado desejado. Quando essa dinâmica é explicada com o uso do método científico se tem um conhecimento do tipo científico. Por outro lado, quando essa explicação é utilizada para gerar um artefato físico, tem-se tecnologia. Muitas tecnologias são produzidas a partir da compreensão dessa dinâmica.

Certa vez um grupo de executivos estava com o desafio de calcular os objetivos e metas passíveis de serem trabalhados para os próximos dez anos da organização que acabaram de tomar posse. Para isso, se colocaram, antes, a seguinte questão “Quais seriam as principais etapas para a construção de um painel de controle para gerenciar os objetivos e metas organizacionais dos próximos dez anos?”. Descobriram seis grandes etapas. Cada etapa era composta, em média de quatro a 8 subetapas. Totalizando 29 subetapas. Cada etapa entregava para a próxima o produto de seu sequenciamento lógico. A etapa posterior recebia o produto da etapa anterior, realizava a sua produção e movimentava a linha de produção, até que o painel de controle estava pronto e funcionando.

Outra vez uma equipe de cientistas se colocou a seguinte questão processual de pesquisa: “Quais são os processos de reaproveitamento de pneus mais vantajosos para serem utilizados por pequenas comunidades isoladas?”. Essa pergunta é interessante porque a ideia de etapas está implícita no conceito “Processo”. Efetivamente, os cientistas queriam saber quais são as diferentes etapas de diferentes formas de reaproveitamento daqueles resíduos. Seus resultados apresentaram algumas dezenas de processos, de conjuntos de etapas. Dentre eles, escolheram os que consideraram mais promissores a partir de um quadro de critérios elaborado também com o suporte dos conhecimentos de base científica. Em seguida, fizeram algumas alterações nos processos escolhidos, adaptando-os às realidades locais e fizeram a documentação desses novos processos. Além das cinco novas tecnologias (uma para cada novo tipo de reaproveitamento), a equipe também foi autora de várias produções científicas e técnicas.

As questões processuais são aquelas que começam com os “Quais são as etapas”, “Quais são os processos”. Essas questões marcam de forma explícita a intenção também explícita de seus objetivos gerais, que buscam “Identificar as etapas...”, “Descrever os principais processos...” ou mesmo “Explicar as fases de...”. O produto final, do ponto de vista científico, é um documento que aponte desde a primeira até a última fase ou etapa procurada e que, com isso, permita a representação diagramática, como em um fluxograma, do processo a que pertencem. O processo, portanto, é a finalidade última dessas investigações, especialmente sua representação, que é sobre a qual a tecnologia pode ser construída. Veja o esquema da figura 14.

A figura 14 mostra que as questões processuais descrevem um roteiro que começa com a compreensão científica das necessidades do ambiente e sobre a forma material mais adequada de realizar o suprimento. Ao longo desse percurso veem-se as sucessões de etapas e, internamente a cada uma delas, o processamento realizado em cada subetapa. Isso significa que quando a n-etapa for finalizada, a etapa de que ela é parte também será finalizada, gerando um subproduto ou parte da tecnologia. Em seguida começa-se a execução da próxima etapa a partir de sua 1-subetapa e assim sucessivamente. Quando a n-etapa da etapa n é finalizada, não finaliza apenas o componente da etapa, mas também a própria tecnologia. Assim, explicação (ciência) e materialização (tecnologia) são as duas vertentes dos esforços dos cientistas para dar conta de necessidades que se permitem representar em esquemas dinâmicos, sucessivos, contínuos.

Para o método científico-tecnológico, as descobertas científicas são apenas o final da primeira das duas etapas do processo de geração de tecnologias. Em seguida, cada etapa identificada pela ciência é materializada em forma de protótipo, em uma forma de arquitetura processual, por analogia com as arquiteturas estruturais. A partir desse momento a tecnologia futura carece das contribuições das questões funcionais, que serão vistas a seguir.


Dr. Daniel Nascimento e Silva

Dr. Daniel Nascimento e Silva

PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)


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