VILA DO SUCURIJU: O ELO PERDIDO DO AMAPÁ


A Vila do Sucuriju é um Distrito do Município de Amapá (antiga Capital do Amapá, distante 300 km da Capital Macapá) e é banhada por um rio de mesmo nome.

 Segundo a lenda é sinuoso como a cobra-demiurgo que o criou (daí o nome), mas na verdade nada mais é do que a constituição de um fluxo hídrico natural, cujo leito é invadido pela água salgada do Oceano Atlântico. Dessa batalha diária das marés contra a correnteza do rio, surge o fenômeno pororoca.

De acordo com o IBGE, sua população no ano de 2010 era de 939 habitantes, sendo 483 homens e 456 mulheres, possuindo um total de 224 domicílios particulares. Várias dificuldades e abandono do poder público levaram a um êxodo e a população reduziu para aproximadamente 500 habitantes e 110 domicílios.

Tal povoado está localizado no entorno da Reserva Biológica do Lago Piratuba, criada em 1980, no delta daquele rio praticamente na orla do Oceano Atlântico, que por ser de proteção integral não permite atividades humanas.

No entanto, a Superintendência Regional do INCRA/Amapá juntamente com o ICMBio, em atenção ao pedido da comunidade, transformou aquela área em projeto agroextrativista (PAE), com 9.577,5976 ha., e nos termos do Decreto Federal 8713/2016 não foi transferida para o Estado do Amapá. Portanto, a Vila do Sucuriju tem jurisdição federal, mesmo porque está encravada em Terreno de Marinha.

Trata-se um lugar isolado do mundo, cujo único acesso de barco é difícil e dependendo das condições climáticas e da maré, pode levar 18h de viagem saindo de Cutias do Araquari (em barco pesqueiro). Demora 20h saindo do Município de Amapá e entre 35h e 40h zarpando do Porto do Igarapé das Mulheres na capital Macapá.

O entorno da vila é composto de mangues, várzeas e lagos (ou “campos permanentemente inundados”) e não há nenhuma “terra firme” livre da alagação por marés ou chuvas. O acesso à região continental através dos lagos, se não é impossível, é extremamente difícil.

Sua origem remonta ao início da década de 1920, quando havia no lugar apenas algumas feitorias (habitações sem paredes feitas de palmeiras tipo um tablado ou maromba sobre o alagado), utilizadas durante as temporadas de pesca costeira por pescadores vindos da embocadura do Amazonas, sobretudo da Vigia e do arquipélago do Bailique.

Segundo SAUTCHUK (2007, Unb), os antigos habitantes da região ficavam no lago, vindo à costa apenas para vender o peixe e comprar alimentos e o rio Sucuriju não existia. Era apenas uma enseada, sem acesso para lugar nenhum.

Somente havia um barranco e uma praia, que impediam o contato com o mar. Desde então já se passava necessidade devido à dificuldade para a chegada de embarcações trazendo mercadorias. Com a chegada de pescadores para salgar e secar os peixes em fartura no mar e nos lagos, estes construíram casas na foz deste rio e aos poucos foram se fixando, formando famílias.

A vila é constituída de uma única ponte de madeira (passarela) e 99% da população vive da pesca no mar e nos lagos (Lago Grande, Lago Façanha, Lago Trindade, Escara, Juçara, Maresia, Paraíso, Espera e Escavado), os quais têm população generosa de Pirarucu ((“Arapaima gigas”). No verão, morrem milhares de pirarucus atolados na lama dos lagos que secam e são a alegria dos urubus, onças e outros predadores. É o ciclo da natureza.

No período da pesca liberada,de 1º de julho a 30 de novembro, o peixe mais consumido e vendido é o pirarucu (lanhado em mantas secas, o bacalhau da Amazônia, delicioso), de valor altíssimo no mercado, vendido em outros estados. Além do pirarucu, a região é farta em peixes como a gurijuba, dourada, filhote e robalo (camurim).

Da gurijuba (“arius parkeri”) tiram o grude (de sua bexiga natatória), que agrega muito valor porque possui substâncias que produzem uma cola de alto teor de adesão, usada principalmente na indústria espacial e em operações cirúrgicas de alta precisão, por causa da não rejeição pelo corpo humano e é exportado para a China, Japão, Europa e Estados Unidos.

Os problemas da comunidade não são poucos. A energia elétrica funciona por barulhento grupo gerador a diesel 6h por dia, das 17h às 23h. Há tempos recentes, a Vila ficou 3 meses no escuro e depois 1 e 2 meses, respectivamente.

A falta de água doce potável é um dos maiores problemas no período do verão. O armazenamento é feito com águas da chuva no inverno em cisterna, tambores e caixas d’água, mas não é o suficiente para atender à demanda.

Nessa época, para não morrerem de sede, muitos moradores saem da vila à procura de água doce na região dos lagos, onde edificam feitorias e passam meses pescando somente para a sobrevivência. Ou migram para as cidades mais próximas mencionadas no início, retirando seus filhos da escola.

No período de outubro a dezembro a Defesa Civil fornece água doce (limitada a uma ou duas cotas por família), mas a maioria das vezes a água chega à comunidade tardiamente ou imprópria para o consumo humano, obrigando as famílias a comprarem água mineral a preço de ouro.

Outro problema significativo enfrentado é a falta de transporte: a comunidade não tem ao seu dispor barco de linha. O barco que o governo do Estado doou encontra-se deteriorado e afundado por falta de manutenção.

As viagens são feita em barcos pesqueiros, sem o mínimo de segurança e condições: não têm banheiros e “molha mais dentro do que fora”. As margens são lamacentas e encalham os barcos, o que impede de atracar na viagem.

Assim, os passageiros masculinos “se viram nos 30”, mas pobre das mulheres. Estas fazem dieta de alimentos sólidos e líquidos desde as vésperas da viagem (kkk), porque além das dificuldades inerentes ao gênero feminino, morrem de medo dos candirus (minúsculos peixes parecidos com bagres), que tem algumas espécies hematófagas (se alimentam de sangue) e outras são carnívoras.

Além do sangue, a urina também os atrai. Se entrar no canal uretral do pênis ou da vagina dos infelizes mijões, só cirurgia para retirar. Besteira e crendice do povo, porque o rio Sucuriju é salobro e tal espécie só dá em água doce.

As viagens não tem dia certo, com intervalos 15 a 20 dias, reduzindo uma por mês no inverno, pois ficam arriscadas, com muitas pororocas, ventanias em alto mar (muitas pessoas mesmo sendo morador da comunidade faltam colocar as tripas para fora de tanto vomitar, rrss). 

Para se ter uma ideia, somente agora em meados de maio as aulas começaram porque não havia barco para levar os professores e os materiais e uma enorme vala se abriu, ameaçando desmoronar o prédio da escola.

Os funcionários públicos que ali desenvolvem suas atividades sonham ter transporte regular adequado para se deslocarem em tempo hábil e desenvolver seus trabalhos dentro do planejado com a comunidade, que tanto almeja ser atendida com os serviços primordiais no eixo “educação, segurança e saúde”.

Também por falta de transporte os produtos alimentícios são escassos. Quando acaba os ovos, mortadela, linguiça e bolacha em uma pequena baiuca, acaba em todas. Aí o bicho pega. Verdura e fruta nem se fala: é ouro na comunidade.

Outrora existia pista de pouso para pequenos aviões, posto de policiamento, telefone orelhão e residencial e sistema híbrido de energia eólico-fotoelétrica, mas toda sua estrutura ruiu por falta de manutenção do poder público e as peças foram furtadas.  

Quando há alguma urgência, a população é socorrida pelo helicóptero do Governo. Um fretamento de barco particular custa aproximadamente R$ 2.500,00, muito além das possibilidades daquela população pobre. Não há uma reles ambulancha para socorrer a população.

A Vila é atendida na área da educação com uma única escola da rede estadual de ensino fundamental. Há em construção uma escola municipal de educação infantil (creche para crianças de até 3 anos e 1º/2º períodos para os de 4 e 5 anos de idade).

Lá funciona um pequeno posto de saúde, com uma única técnica de enfermagem e nunca há medicamentos fora do trivial. Uma ou duas ações de saúde são realizadas por ano pela equipe médica do Município/Estado. Tem que ter reza forte para não adoecer nesse interregno. Há uma alta incidência de câncer e gastrite pelo consumo excessivo de comida salgada e há muitos registros de HIV.

Em relação ao ensino médio, ainda está nas vãs promessas eleitoreiras e esperança infinita daquele povo sofrido e esquecido, fazendo com que muitos alunos não prossigam seus estudos, por falta de condições de se deslocarem para as cidades.

Mas o que leva um povo a viver em lugar ermo, inóspito? A par das dificuldades, há algumas vantagens com sua fartura de peixes e é conhecida pelos seus caranguejos graúdos. O povo é acolhedor e ainda um pouco de relativa tranquilidade.

Anualmente, no mês de agosto, há o arraial de Nª. Srª de Nazaré, concorridíssimo, porque os pescadores que navegam na costa, a maioria de Vigia e Bragança do vizinho Pará (que “roubam” nossos peixes), aportam por lá.

“A Festa” (é o nome) é o acontecimento mais importante do vilarejo e se estende por duas semanas, com missas, jogos e bailes. E uma de suas atrações é a disputa entre os pescadores dos lagos e os pescadores de fora (do mar) na doação de bens a serem leiloados para a Santa.

Mas nem tudo é festa. Nos últimos 10 anos o consumo de drogas ilícitas na localidade vem aumentando. Além do consumo, é um local de travessia dos entorpecentes pelo alto mar em direção às Guianas em embarcações pesqueiras vindo de outros Estados. Por ser área de difícil acesso a polícia por lá é “avis rara”.

Não há um meganha sequer na Vila e nem uma fragata da Marinha do Brasil para fiscalizar a costa Amapaense do Atlântico, que abriga o Parque Nacional Cabo Orange. Os piratas e barcos pesqueiros invasores “brincam de pira”.

A taxa de analfabetismo entre os idosos é alta, ficando a total responsabilidade de educar seus filhos para a escola. Imagine o caos no ensino no período da pandemia, com aulas remotas se a única escola não tem computadores e nem internet. São anos perdidos irrecuperáveis na linha do tempo. 

A população a cada ano está diminuindo, deixando o local em busca de melhores condições para seus filhos, vez que a vila hoje é esquecida e só é lembrada e visitada nos períodos eleitorais. Depois, os políticos mandrakes desaparecem como num passe de mágica.

A professorinha da escolinha do Sucuriju, a quem eu rendo minhas homenagens como professor que também sou, ao ser entrevistada por mim e indagada o que a levava a deixar de lado os prazeres da juventude para enfrentar um desafio dessa magnitude, me comoveu profundamente:

- E assim, lá estou eu, fui conhecer a realidade de perto, deixando para trás meus saltos, saias curtas, festas, fãs e família. Não sei nadar e por isso tenho muito medo de morrer nas perigosas travessias que já naufragaram vários barcos com muitas vítimas.

Com os olhos marejados e com certo ar de orgulho por abraçar de corpo e alma o magistério e amar as “suas crianças”, continuou:

-Mesmo sabendo de todas as dificuldades, foi um local escolhido por mim, porque é raro alguém pedir para trabalhar na Vila do Sucuriju. Lá desenvolvo meu trabalho e contribuo com a educação daquelas crianças que tanto almejam um futuro melhor. Fui para ficar 3 meses e já estou há cinco anos alfabetizando e aprendendo com eles a viver em comunidade, todos coesos e solidários nas suas dificuldades, abandono e pobreza.

Observei que a pequena professorinha, com seus cabelos loiros e sandálias havaianas desfruta de uma beleza natural. Segundo ela, os cabelos e pele ficaram mais bonitos com a água da chuva.

No começo ela não sabia lidar com água salobra, seu shampoo e sabão em pó não espumavam de jeito nenhum e acabaram com seus lindos cabelos loiros. Não havia escova que desse jeito, por isso cortou a “la homme”. As pernas ficaram rechonchudas e toda “tuíra” de tanto se manter de pé nas passarelas de madeira apodrecida, cuidando para a cada andada não levar uma topada. Isso a obrigou a descer do salto alto e passou a arrebentar um par de havaianas por semana.

Sempre digo que um problema só é bem resolvido se bem compreendido. A Vila do Sucuriju padece de todos esses males por conta das decisões equivocadas dos gestores, que nunca foram para lá de barcos precários (muitos de pesca) contendo suas necessidades fisiológicas e arriscando a vida na pororoca e no mar bravio para sentirem na pele o drama sofrido pelos moradores.

Hoje temos soluções simples e baratas que resolvem a falta de energia, como sistemas de painéis solares (fotovoltaicos) individuais e nos prédios públicos.

É um absurdo em pleno 2022 condenar uma comunidade à privação de elementar energia, dependendo da queima de diesel cada dia mais caro, poluente sonoro e do ar. É inacreditável uma escola pública não ter acesso à rede mundial, privando a população e seus alunos das maravilhas e informações da internet.

É um disparate não haver ensino de segundo grau na comunidade, quando Governos gastaram bilhões em Elefantes Albinos para a Copa do Mundo e ostentar para o mundo um desenvolvimento que o país não tem para sediar uma Olimpíada. Depois de décadas, somente agora o Município de Amapá está construindo uma escola municipal de educação infantil. Antes tarde do que nunca...

É estarrecedor o Estado não estar presente com sua força de segurança pública no local, nem que fosse uma dupla de “Cosme e Damião” para registrar um boletim de ocorrência e manter a ordem, com um barco (voadeira) adequado para eventuais emergências. Ali prevalece a impunidade e a lei do mais forte por causa da ausência do Estado.

Por último, a falta de água potável, algo torturante, é facilmente resolvida com dessalinizador solar doméstico de baixo custo de implantação e manutenção, com capacidade para produzir em média 80 litros água potável por dia sem uso de eletricidade e livre de produtos químicos.

Naquele fim de mundo, no ELO PERDIDO DO AMAPÁ, a jovem professora ama o que faz e principalmente tem na alma a missão de ajudar a quem mais precisa. Isso me faz verter lágrimas nos olhos.

Querida professorinha, na Festa do Arraial de agosto vou rezar para Nossa Senhora de Nazaré para ela semear no coração de todos os gestores públicos (que certamente estarão lá, esse ano tem eleição, né? Rrsss), o mesmo amor, respeito e dedicação que a senhora tem por aquela comunidade esquecida.

Parabéns, professorinha! Heroínas anônimas da sua estirpe ainda me fazem acreditar neste País cheio de desigualdades, chamado Brasil.


Dr. Adilson Garcia

Dr. Adilson Garcia

Fórum Íntimo – professor doutor em Direito pela PUC- -SP, advogado e promotor de justiça aposentado.



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