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Bravo, papai!


Dom Pedro José Conti 

Bispo de Macapá 

Alguns anos atrás, o Teatro da Ópera de Paris estava para começar a estação musical com um espetáculo no qual teria cantado um famoso tenor. Os ingressos foram vendidos rapidamente, porque todos queriam ouvir a voz extraordinária daquele homem. No entanto, aconteceu que o grande artista adoeceu e não pode cantar. O diretor da Ópera, envergonhado, teve que pedir desculpa, explicou a situação e disse que um tenor local substituiria o mais famoso. O público reagiu de formas diferentes. Alguns vaiaram, outros saíram, a maioria estava insatisfeita, mas resolveu ficar. O novo tenor entrou no palco e cantou por duas horas da melhor maneira possível. Quando acabou, o público continuou no mais absoluto silêncio. Não era ele que todos queriam ter ouvido. De repente, um espectador começou a aplaudir e gritou com a sua voz infantil: - Bravo! Bravíssimo, papai! Todos se viraram para olhar aquela criança e vendo o seu entusiasmo aclamaram o cantor. Aquele simples gesto de amor tinha mudado tudo.    

No evangelho de Lucas, deste domingo, encontramos coisas pequenas como a fé, comparada a um grão de mostarda, e gestos simples como aquele do empregado que deve preparar o jantar para o seu patrão. O último versículo nos parece até humilhante: Jesus chama de “servos inúteis” os seguidores dele. É assim que ele considera os seus amigos? Evidentemente não. Lucas, com essas palavras e comparações de Jesus, quer nos transmitir um recado muito importante a respeito da fé, que os apóstolos pedem que o Senhor a aumente. A resposta de Jesus deixa entender que a dita “fé” não se mede pelo tamanho, mas pela qualidade. É costume entre nós falar de “muita” ou “pouca” fé. Talvez deveríamos aprender a falar mais de fé sincera e verdadeira, deixando as medições do tamanho dela à misericórdia de Deus. 

Com efeito, muitas vezes consideramos pessoas de muita fé, aquelas, que, ao falar, usam bastante o nome de Deus ou aquelas que rezam muito ou “vivem na igreja”, como diz o povo. Pode ser mesmo assim, mas Jesus fala de “plantar” uma amoreira no mar, algo, digamos, praticamente sem sentido. Acredito que ele quisesse dizer que a fé verdadeira deve surpreender. Não será feita simplesmente de declarações e bons gestos; ela deve mudar, transformar, revirar de cima para baixo algumas situações. Pela fé, o que parece impossível pode se tornar realidade. É o que lemos de Abrão na carta aos Romanos: “Esperando contra toda esperança, ele acreditou e, assim, tornou-se pai de muitos povos...” (Rm 4,18) ou de Moisés, na carta aos Hebreus que deixou o Egito “como se visse o invisível” (Hb 11,27). Maria, também, é “bem-aventurada” porque acreditou no impossível da anunciação (Lc 1,37). Quantas pessoas “de bem” disseram do próprio Jesus e de muitos cristãos e cristãs que depois o seguiram que tinham enlouquecido? (Mc 3,20-22).

Sem arriscar nada, bem acomodados nas nossas ideias e seguros dos resultados dos nossos projetos, vivemos uma fé feita de costumes, orações repetidas, gestos acuradamente planejados. Nesse caso, qualquer “religião” serve porque, afinal, somos nós mesmos que decidimos o rumo da nossa existência. Qualquer “Deus sem rosto” vale para dizer que acreditamos nele: aquele de alguma Igreja tradicional ou um mais recente bem animado, sem tanta doutrina e regras morais. Por isso, ficamos ressentidos a ouvir Jesus dizer que o servo que deve preparar o jantar ao patrão, simplesmente, cumpriu a sua obrigação: fez o que devia fazer. Certo, porque a fé verdadeira não está nos nossos planos, mas na obediência aos projetos de Deus. O heroísmo da fé consiste na humilde disponibilidade a servir, até o fim, a causa do Reino dos Céus e não aos nossos sonhos de poder e de glória humana. Para Jesus, é melhor sermos “servos inúteis”, fiéis servidores do seu Reino do que, talvez, príncipes de qualquer império humano feito de injustiças e disputas, de exploração, ganância e violência. Sem esquecer que o Senhor chama de bem-aventurados os servos que encontrar “acordados”,  quando ele voltar; ele mesmo os fará sentar à  mesa e passará a servi-los (Lc 12,37). Então? Queremos aplausos porque acreditamos? Só dos pequenos agora. De Jesus, depois.

 

Em sex., 2 de set. de 2022 09:12, Oscar Costa da Silva Filho <oscarfilho.ap@gmail.com> escreveu:

Os bons propósitos

 

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

 

A mãe estava passando roupa e o filho adolescente sentado à mesa escrevia, no seu caderno, os bons propósitos da sua vida. “Se visse alguém que estivesse para afogar – escrevia o jovem – logo me jogaria na água para socorrê-lo. Se pegasse fogo a casa salvaria as crianças. Se acontecesse um terremoto, não teria medo de entrar nos prédios mais perigosos para salvar alguém. Gastarei a minha vida para ajudar todos os pobres do mundo...”. De repente, a mãe lhe diz:

- Por favor, meu filho, vai à padaria, aqui embaixo, e compra alguns pães. Responde o jovem:

- Ó mãe, a senhora não vê que está chovendo?

No evangelho de Lucas deste 23º Domingo do Tempo Comum, Jesus nos apresenta mais algumas condições para nos tornarmos seus discípulos. Ele já nos alertou sobre a ganância, o apego às coisas materiais, às amizades interesseiras que nos impedem de sermos felizes experimentando um pouco do amor gratuito de Deus. Agora, parece pedir mais ainda. Nada de vida fácil para os seus discípulos. Será necessário se desapegar da família, carregar a própria cruz e renunciar a tudo o que temos. Jesus não exagerou demais na sua maneira de falar? E se alguém não conseguir tudo isso, nunca será discípulo do Mestre?

Vamos começar a entender um pouco melhor o que pode significar “carregar” a própria cruz. Logo pensamos em fardos pesados, situações adversas que vão exigir grandes esforços e sacrifícios. Na realidade, a nossa cruz somos nós mesmos, levando em conta os defeitos e as limitações que experimentamos, sem esquecer as circunstâncias – tempo e lugar – onde nascemos, crescemos e vivemos. Por isso, Jesus fala de uma “obra”, semelhante à construção de uma torre que deve ser bem calculada, para não parar no meio por falta de recursos e, assim, passar vergonha. Vale, também, a comparação com uma “guerra” que não pode ser ganha se o número dos próprios homens for pequeno demais para enfrentar o inimigo. Qualquer coisa que queiramos fazer ou alcançar na vida, somente será possível construir, incluindo a nossa personalidade ou maturidade que seja, a partir da nossa realidade que nunca é perfeita. São Paulo diz: “...quando quero fazer o bem, é o mal que se me apresenta... (Rm 7,21-24). Nós vivemos mergulhados em bons exemplos e em bons sentimentos, mas também sempre com a tentação de desprezar e invejar os outros, transformando tudo em disputas, brigas e confusões. Encontramos amigos para amar, mas tropeçamos em inimigos que nos fazem sentir ódio e rancor.

Carregar a nossa cruz significa todo dia – talvez toda hora - suar um pouco ou muito para corrigir o nosso egoísmo, reconhecer que erramos, perdoar quem nos ofendeu, aprender sempre de novo a amar como Jesus nos deu o exemplo, servindo no último lugar aos pobres e pequenos. Por isso, ele nos pede de escolhê-lo como único “Senhor” da nossa vida, como “luz”, para podermos ter olhos capazes de ver o mal, as injustiças e as mentiras, também se podemos encontrar tudo isso entre os nossos familiares e, com certeza e sobretudo, nas coisas materiais que aprisionam o nosso coração e nos fazem construir uma sociedade desumana de excluídos e famintos. Acontece que é muito mais fácil apontar os erros dos outros que os próprios. Para os sócios, os amigos e os parentes valem critérios e desculpas bem diferentes daqueles que aplicamos aos demais. Com a melhor das intenções (amizade? afeto?) talvez compactuamos com os pecados pessoais e sociais que nada contribuem para o bem comum e a esperança de todos. Os panos sujos se lavam em casa, diz o ditado, mas é necessário fazermos alguma coisa para que eles fiquem limpos, quem sabe, de uma vez por todas. Jesus não nos coloca contra as nossas famílias e nem contra os bens deste mundo, somente nos pede para fazermos bem os cálculos para perseverarmos até o fim na construção da grande obra do seu Reino sem nos desviarmos, por outros objetivos, ao longo do caminho. Não precisa querer salvar todo o mundo ou esperar alguma fatalidade para sermos aclamados heróis. Começamos a ajudar alguém que precisa. Também se lá fora chove egoísmo e indiferença.  



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