Vacinação no Túnel do Tempo da história


A Organização Mundial da Saúde calcula que a aplicação de vacinas evita, todos os anos, 6 milhões de mortes. Doenças que antes pareciam incontroláveis e tiravam o sono de médicos e políticos praticamente sumiram do mapa após grandes programas de imunização. 

No inicio do último mês do ano trágico de 2020, DEZEMBRO, no dia 05/12 a Rússia começou a vacinar seus habitantes e no dia 08 de dezembro foi a vez do Reino Unido em imunizar os britânicos começando pelos idosos e profissionais da saúde.

Entre 13 países que definiram campanhas de imunização, tendo vacinas garantidas – o que não é o caso do Brasil –,  Alemanha, Argentina, Turquia e Bulgária pretendem deslanchar suas campanhas ainda esse mês. 

A história da humanidade é cheia de históricos de saúde minadas por doenças desconhecidas. Milênios de sofrimento do ser humano com pandemias, endemias e surtos de todos os tipos de doenças. Casos de hanseníase e tuberculose, por exemplo. A epidemia de peste bubônica que devastou a cidade do Porto, no noroeste de Portugal, em 1899, um cerco foi efetuado.

Vamos pegar o caso da poliomielite, a popular paralisia infantil: em 1981, foram registrados 4,5 milhões de casos em todo o globo, enquanto a taxa de vacinação estava na casa dos 10% da população. Passados 27 anos, em 2008 a situação era completamente oposta. Com mais de 90% dos indivíduos protegidos desse vírus, o número de atingidos ficou abaixo da casa dos 300 mil — na esmagadora maioria dos países, aliás, a doença está erradicada. 

Após a solução contra a varíola, apareceram os imunizantes contra raiva, febre tifoide, cólera e praga. Num primeiro momento, a população ficou ressabiada com o novo procedimento. Afinal, ele envolvia enfiar agulhas na pele de gente completamente saudável — isso quando não era necessário ralar e raspar a cútis ou fazer cortes mais extensos. 

Em nosso próprio país, os imunizantes já foram motivo de insurreição popular. Em 1904, o presidente Rodrigues Alves (1848-1919) apostou num plano de modernização e higienização da cidade do Rio de Janeiro. Para tanto, ele recrutou o médico Oswaldo Cruz (1872-1917), que investiu num programa de vacinação obrigatório contra a varíola e a erradicação de criadouros do Aedes aegypti (sempre ele!), transmissor da febre amarela urbana, que assolava a então capital do Brasil. 

A reação do povo foi imediata: os agentes de saúde eram recebidos a pauladas e pedradas. Bondes foram derrubados. Barricadas e incêndios eram feitos a toda hora. No fim, deu tudo certo: tanto varíola quanto febre amarela não são mais vistas como ameaças em terras tupiniquins. Mas o episódio, que ficou conhecido como Revolta da Vacina, ilustra bem o tamanho da desconfiança que cercava as políticas de saúde pública à época. 

Passados mais de 100 anos desse episódio tragicômico, parece que algumas coisas não mudaram. E, infelizmente, a internet ajuda a potencializar boatos e informações falsas.

A apropriação da insatisfação popular com as medidas sanitárias para fins políticos é um dos aspectos em que há correlação entre a Revolta da Vacina e a atual pandemia. 

Em 1904, setores políticos de oposição, especialmente monarquistas depostos pelo novo regime e militares positivistas, viram uma oportunidade de articular um golpe de Estado – que fracassou. 

A pandemia de covid-19 também está sendo usada politicamente. Uns contra, uns a favor de certas medidas sanitárias, mas cada um puxando para o seu lado, aproveitando certa insatisfação social para seus interesses.

Não há nenhuma dúvida entre cientistas de que vacinas são seguras e necessárias para controlar diversos problemas. Ao tomar as suas doses, você não está apenas protegendo a si mesmo, mas toda a comunidade. Ora, se o vírus ou a bactéria não conseguem invadir seu organismo, é uma oportunidade a menos para eles se replicarem e infectarem outras pessoas, não é mesmo? 


REINALDO COELHO

REINALDO COELHO

JORNALISTA, EDITOR E PROFESSOR



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